Chegaram as cidades como Cabo Frio e Arraial do Cabo, o desenvolvimento, o aumento da renda per capita, esta “evolução” da comunidade não foi tão presente como aparenta, este crescimento, em alguns momentos desordenado, ocorreu fruto de um transbordo de grandes cidades, onde os migrantes procuravam melhor qualidade de vida, fato que ocorre em detrimento do caiçara que impossibilitado de acompanhar o crescimento exógeno, sucumbe ao domínio citadino do migrante que trás na bagagem mais preparo profissional, acadêmico e financeiro, desta forma compra a casa do caiçara que se muda para longe da beira de seu sustento, o mar, compra seu meio de sustento, subverte sua cultura trazendo valores que não pertenciam aquele grupo social criando crises familiares reais onde filhos perdem o respeito pela forma de trabalho que sustentou aquele grupo por gerações, desta forma perdem os valores nos quais foram criados e se sentem inaptos a se adaptarem aos novos valores trazidos pela atual classe economicamente dominante.
Em anexo a chegada destes primeiros migrantes e a reboque, vem uma segunda leva que fruto de uma classe social menos favorecida, busca as oportunidades criadas pela primeira leva, com estes vem a criminalidade o trabalho informal e todos os outros vicios e desvantagens da cidade grande que eram distantes daquela comunidade. Se não conseguem se identificar com o primeiro grupo em função do grande degrau financeiro que os separa em uma sociedade cada vez mais estratificada, o caiçara passa a se relacionar com esta segunda leva absorvendo toda natureza dos vícios e mazelas morais deste grupo que por sua formação já conta com falhas na sua concepção de certo e errado em harmonia com a lei e os bons costumes.
Esfacelada em sua raiz, a comunidade em apenas meio século desconstrói toda sua cultura e valores formados ao longo de vários séculos, de muitas gerações. Perdida a identidade com seus pais e avós a nova geração não sabe mais que rumo tomar e em sua crise busca anestesiar sua angustia se voltando para as drogas, a bebida e outros hábitos que aprofundam a distancia entre os que chegaram e os que aqui estavam.
As novas formas de trabalho formal necessitam cada dia mais de formação regular em sua maioria fornecida por instituições educacionais particulares que respondem mais rápido as oportunidades de negócio, este custo é inacessível aos caiçaras que tem por única herança o saber do mar, desta feita, aos que ficam para trás sobram oportunidades de sub-emprego que se não são um trabalho escravo subvertem as condições nas quais o trabalho se encontra definido nos dias atuais.
Embarcam em barcos mal preparados para enfrentar o vigor do mar, barcos estes comprados pelos migrantes da primeira leva e operados por seus antigos proprietários agora serviçais informais que assumem o risco, cedem os lucros ao novo contratante e para si resta apenas o sustento do parco alimento e o risco de não voltar do mar. Dos salineiros que ali estavam, levam as salinas, transformando-as em casas para novos migrantes que aumentam as desigualdades.
Então sobra a questão que afligem aos pensadores do social, não será esta uma forma de escravidão onde sabedores da perda de sua cultura ainda se submetem os caiçaras aqueles que a usurparam retiraram suas casas e corromperam suas famílias.
E se me perguntam em quais livros busquei estas letras, lhes falo que foi ao longo deste meu meio século de vida, observando tudo isto acontecer na região, eu que de família de salineiros perdi minha identidade e pela graça do Senhor Deus consegui reencontrá-la, choro por aqueles amigos que morreram nesta busca, alguns sem sequer saber que a haviam perdido.
