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IGUALDADE, LIBERDADE E FRATERNIDADE
O Tomismo Revisado pela Reforma
O Tomismo Revisado pela Reforma

Muitas são as orientações teológicas que encontramos no caminho da evangelização, única obrigação de empreendimento terreno dada por Cristo nos seus últimos momentos antes da crucifixão. Para melhor evangelizar precisamos entender as bases de onde surgiram os preceitos que cada um defende, por vezes antagonicamente. Ao entender o outro e se munir de argumentação, podemos melhorar nossa eficiência na missão dada pelo Senhor, a exemplo de Paulo, que conhecedor dos pagãos os vencia em argumentos no seu próprio território.

Observando as obras do grande teólogo Tomás de Aquino, que contribuiu fortemente em seus escritos sobre a ética cristã, e para a base da igreja, encontramos concordâncias e divergências com o pensamento reformado da igreja na interpretação bíblica. 

Tanto Aquino como os reformadores entendiam que a linguagem humana ao falar acerca de Deus não revela a natureza de Deus com precisão pois o homem não consegue perceber Deus em sua totalidade. Entendiam também que a lei divina é revelada unicamente na Escritura, sendo ela inspirada por Deus, sendo este, Aquele que ordena tudo e é a causa suprema de tudo o que acontece. Sendo assim, Aquino e os Reformadores aceitavam a Bíblia como única revelação e único guia para a salvação, o que modificava-se eram as formas de interpretar a palavra, partindo da cosmovisão particular de cada um destes.

Haviam divergências importantes, sendo elas, formadoras de linhas divisórias que muitas vezes nortearam a própria reforma. Aquino acredita que o batismo como sacramento, tem o poder  de incluir o indivíduo no Corpo de Cristo e o salvar, os reformadores por sua vez acreditam que o batismo é simbólico e oram para que o Senhor conceda fé ao batizado para receber a salvação.

Sobre o sacramento da eucaristia, na doutrina tomista, este defende a transubstanciação, onde o corpo de Cristo passa a estar no sacramento por meio da conversão da substância do pão em seu corpo e do vinho em seu sangue, ainda professa que todo o corpo está no pão, como está totalmente no vinho, o que dispensa o uso das duas espécies. Lutero defende a consubstanciação, onde o pão e o vinho são realmente pão e vinho e ao mesmo tempo a verdadeira carne e o verdadeiro sangue de Cristo estão neles, contudo esta não é a opinião de muitos dos reformadores que acreditam ser a eucaristia apenas um memorial. Para Calvino existe a presença espiritual onde Cristo transmite a comunhão do seu próprio corpo pelo poder do seu Espírito que, dessa forma, alimenta e revigora os crentes na eucaristia, teoria esta que pessoalmente sinto ser a mais pertinente. 

Quanto ao pecado, Tomas de Aquino acreditava na penitência e na indulgência como formas de remediar o pecado, atribuindo a instituição da igreja e ao Papa o poder de solucionar o pecado, alegando que o homem nada precisa conhecer ou compreender da verdade para ser salvo, contanto que se submeta humildemente á Igreja, mantendo a unidade com ela e submissão ao Papa. Este argumento inclui a possibilidade de que um homem mau e descrente que faça doação de vultuosos valores e se martirize, entrar no céu mesmo sem o arrependimento de seus erros, o que me parece inconcebível. 

Contra estas alegações os reformadores proclamam as cinco solas Sola Scriptura (Somente a Escritura), Solus Christus (Somente Cristo), Sola Gratia (Só a Graça), Sola Fide (Só a Fé), Soli Deo Gloria (Somente a Deus a Glória) e Calvino ainda acrescenta cinco crenças que são a depravação total onde o homem não regenerado é absolutamente escravo do pecado, a eleição Incondicional, onde Deus escolheu apenas algumas pessoas para a salvação, a expiação limitada, onde Cristo morreu para salvar pessoas determinadas e não a totalidade dos humanos, a graça irresistível, onde se entende que a graça divina é irresistível para aqueles que creem, isto é, o Espírito Santo acaba convencendo e infundindo a fé salvadora neles que são transformados irresistivelmente por esta ação, a perseverança dos santos, uma vez que Deus é soberano e sua vontade não pode ser frustrada por seres humanos ou de qualquer outra maneira, aqueles a quem Deus tenha posto em comunhão com Ele continuarão na fé até o fim. Sendo assim, o pecado somente pode ser remediado nos escolhidos de Deus por sua graça, sendo que estes mesmos escolhidos por influencia da transformação desenvolvida pelo Espírito Santo, terão aversão natural ao pecado.

Mas nesta visão , quem é santificado ou justificado? Segundo o Doutor Angélico como era conhecido Tomas de Aquino, não há distinção entre ser justificado e ser santificado, isto fica entrelaçado, portanto o homem só é justificado no momento em que é santificado. Os reformadores por sua vez, entendem que a justificação é um ato instantâneo de Deus, que declara o pecador livre de culpa no momento de sua entrega em fé a Cristo. Já a santificação é o aperfeiçoamento do caráter, transformando-o em um homem maduro e reto pela ação do Espírito Santo. Enquanto Aquino acredita que a santificação é a simples separação do crente para Deus, os reformadores entendem que ela ocorre à partir deste momento e por toda vida, o transformando em suas ações internas e externas.

Ao observar esta reflexão, percebemos que os pontos de discordância embora importantes, não devem distanciar os Cristãos que pensam diferentemente, contudo servem para, no melhor entendimento das diferenças, guiar a conversa entre os irmãos em Cristo, de forma a promover a unidade em torno do evangelho.

Frederico Fontoura, Ph.D.